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72 horas em Dogtown, o berço do skate na Califórnia

Sté Reis

13/08/2019 19h11

Skatista nas ruas da Ocean Side, em Venice (Sté Reis || Asfalto)

Na última semana, o Asfalto fez a sua primeira viagem à Venice, no coração de Los Angeles, em busca de respostas sobre o berço da cultura de skate californiana. Uma cidade que era uma favela à beira-mar e que se tornou a principal referência de cultura de rua no mundo.

Entre conversas com skatistas pioneiros, entusiastas e jornalistas locais, fizemos um roteiro com os principais pontos para quem for viajar em busca dos melhores picos e fazer um roteiro histórico por Dogtown, uma pequena vizinhança de um pouco mais de 1.4KM retratada no filme "The Lords of Dogtown", lançado nos anos 2000, e que mostra o surgimento dos Z-Boys, a crew de skate que deu origem à uma cultura mundial.

Hoje, considerada uma cidade muito liberal por causa de suas leis mais frouxas de migração, consumo de maconha e da herança da contracultura hippie do fim dos anos 60, Venice é uma cidade gentrificada pelo skate, sua principal contradição. Levando em consideração que nos anos 70 era um lugar abandonado, com tretas de gangues, traficantes e jovens à margem que sofriam os efeitos do pós-Guerra do Vietnã, ver apartamentos no mesmo local custando até US$ 1 milhão, mostra o impacto que o skate teve na economia de Santa Mônica.

O que é Dogtown

Imagem de um dos skates criados por Jim Muir na década de 70 (Bruno Paoli || Asfalto)

Dogtown é uma referência a uma piscina que foi esvaziada durante uma seca nos 70, quando os skatistas começaram a desbravar os bowls. A piscina de Dino, skatista com câncer terminal, foi batizada de Dog Bowl por Jay Adams, Stacey Peralta e Tony Alva, o time principal do Zephyr, por causa da quantidade de cachorros que circulavam por lá.

"Dois séculos de tecnologia norte-americana criaram um grande playground de concreto com potencial ilimitado. Mas, foi a mente de crianças de 11 anos que puderam enxergar seu potencial", descreve Craig Stecyk, em 75, um dos Z-Boys. "Nós criamos uma revolução", diz Tony Alva no evento Black Rainbows, da Vans, que celebrou o lançamento do primeiro tênis de skate da história, o Era. Tony, Peggy Oki (primeira skatista pró e primeira a ganhar um campeonato entre os Z) e Jeff Ho, o pai da crew, falaram sobre o início dessa cultura.

Tony Alva, um dos skatistas pioneiros de Los Angeles, na orla de Venice em foto para o Vans Black Rainbows (Celina Kenyon || @CelinaKenyon)

"Essa vizinhança tinha um sabor urbano", explica Tony. "A gente tinha esse cárater urbano que se diferenciava das outras praias na Califórnia. Eu tentava me encontrar no surf e começaram a chegar vários caras nessa mesma busca. Eu dava esse espaço para os garotos e criava um ambiente seguro para se expressar, eles faziam isso no surf e depois no skate. Nossa crew de skate virou o time de competição do Zephyr. A gente andava de jeans rasgados, meias de cano alto, Vans e a camiseta azul do Zephyr, isso criou um estética."

Tony Alva Backside 50-50 Grind (Celina Kenyon || @CelinaKenyon)

Pier de Santa Mônica

Vista do Pier de Santa Monica, dá pra ir remando de Venice até lá em média em 30 minutos (Bruno Paoli || Asfalto)

O pier de Santa Mônica foi onde o surf começou a deslanchar como cultura nos início dos anos 70. Eles eram extremamente bairristas e hostilizavam qualquer estrangeiro, mesmo da Califórnia, o que deu muita briga quando descobriram que esse era o melhor point de surf da Costa Oeste. É deles o termo "Locals Only", que era pixado nos muros de Santa Mônica para espantar surfistas de outras cidades.

Roda gigante do Santa Mônica Pier, uma das grandes atrações turísticas (Bruno Paoli || Asfalto)

Uma praia com ondas regulares e que lançou grandes surfistas, considerada um pico exclusivo dos locais, mas só tinha onda até 10h da manhã. Por isso, eles começaram a adaptar pranchas em tábuas de madeira com rodas de patins e levaram o surf pro asfalto, o início de uma comunidade que compartilhava gostos em comum. É um ponto importante do roteiro, com várias referências na cultura pop, e com o Santa Mônica Pier, que abriga um parque de diversões com várias opções de diversão e comida.

Graffiti Walls

A praia era um antigo parque, então abriga diversos espaços destinados ao grafite (Bruno Paoli || Asfalto)

Se você quer fazer um roteiro pela cidade, vai encontrar na rua suas principais tradições. Lojas como a Zephyr Store, onde Jeff fabricava pranchas de surf e shapes, não resistiram as mudanças, ainda que continue vendendo skates oldschool.

A maior quantidade de grafites da região está em Venice. No centro da cidade e lugares mais comerciais, pixar é inclusive proibido. Mas, na orla de Venice e nos becos até Santa Mônica, os principais grafites fazem referência aos ZBoys, a cultura do skate e seus principais expoentes. As tags ainda são mais próximas do grafite oldschool, criado na época por gangues, punks e imigrantes latinos.

Os grafites da cidade são dedicados principalmente a cultura de rua local. A bandana azul faz referência a uma crew de mexicanos de Venice (Bruno Paoli || Asfalto)

É interessante dizer que esses grafites foram a principal inspiração de Jeff Ho para criar uma identidade autêntica para o skate, mais inspirada na rua e menos nas cores da natureza que faziam parte da ilustração das suas pranchas de surf. Isso deu início a toda uma cultura de customização e de design específico para o skate.

Mural mostra diferentes designs clássicos de shapes da época (Bruno Paoli || Asfalto)

"Graffiti Wall and Tower", obra construída ao lado da pista de skate de Venice (Bruno Paoli || Asfalto)

Juice Magazine

O escritório da Juice é uma verdade memorabília do nascimento do skate e da cultura punk (Bruno Paoli || Asfalto)

Encontramos o escritório da Juice na orla de Venice e é uma parada obrigatória para quem quiser ouvir histórias da época. Lá é a casa de Terri Craft, que se mantém onde morava, e foi a primeira jornalista a imprimir zines sobre skate nos anos 80. Ela nos recebeu com muito carinho e compartilhou histórias e desafios da comunidade. Sua casa tem obras originais de Shepard Fairey, fotos originais de shows de bandas como Black Flag, Fugazi e um grande acervo da tradição do skate punk. Além de fotos e memoriais a Jay Adams, um dos editores da revista e um dos três principais ZBoys, que morreu em 2014, surfando, aos 53.

Alguns shapes feitos por artistas de diversas partes do mundo decoram o escritório da Juice (Bruno Paoli || Asfalto)

Venice Beach

Venice Skate Park no final da tarde (Bruno Paoli || Asfalto)

A principal atração para skatistas na região é a Skatepark que fica no centro da praia. "Demoramos mais de 30 anos para conseguir construir aquela pista", explica Terri. "Nos reunimos e fizemos diversos pedidos ao governo para que considerassem nosso projeto ao invés de fazer um paisagismo na praça em que os skatistas andavam e que seria destruída. Conseguimos tirar jovens da rua e da marginalidade dando a eles o pertencimento a uma comunidade". A pista é uma das principais atrações da praia, reunindo centenas de skatistas diariamente. Mas, é na rua em que tudo acontece, então bancos, gaps, bordas e obstáculos são ótimas opções para quem é apaixonado pelas fortes emoções do skate street.

Skatepark de Venice fica aberto até às 22h da noite (Bruno Paoli || Asfalto)

Dicas gerais

– é possível levar o skate sem despachar, mas é importante considerar uma skate bag. Na volta, a taxa da alfândega vai ser proporcional a quantidade, mas é tranquilo se você montar um skate lá e trazer pro Brasil
– a cultura canábica é um ponto forte na região, mas não permitida a turistas. A venda de maconha na Califórnia somente é feita com prescrição
– por mais que seja atraente, não é permitido beber na praia. A multa é tão salgada quando a água do mar
– a orla conta com diversas opções de lojas de skate, como a Maui Skateshop, uma das mais tradicionais
– andar na rua é muito comum e os pedestres costumam pedir manobras, dar passagem e tratar skatistas como heróis. Mas, não recomendamos que desrespeitem as leis de tráfego
– fique atento e use a criatividade: existe um boulevard específico para manobras de street na Skatepark, opções de borda infinita em Santa Mônica, escadarias e espaços que se assemelham a uma versão melhorada de picos paulistanos como a Roosevelt. Have fun!

 

Sobre a autora

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Sté Reis estudou Jornalismo na São Judas e desde então escreve sobre sua relação com as ruas da capital. Se especializou em cultura underground, música e feminismo, foi repórter em UOL Entretenimento e tem textos publicados no Zona Punk, Youpix, Brainstorm9, Deepbeep, Rolling Stone, MTV e Facebook Brasil. É assistente de conteúdo do DJ Marky, do rapper Projota, e compartilha seus achados no Malaguetas, há mais de dez anos no ar.

Sobre o blog

Histórias de quem ocupa a cidade e dicas de intervenções urbanas, música, cultura pop e esportes de rua para quem encara o asfalto de São Paulo e busca novas formas de viver a capital.