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Pianista Jonathan Ferr conta como está levando o jazz de volta às ruas

Sté Reis

30/04/2019 13h46

Ferr na abertura do show para saxofonista de jazz americano Kamasi Washington (Divulgação / Circo Voador)

"2019. Se fossemos personificar o jazz, diríamos que ele é alguém que nasceu nas ruas, cresceu e foi para o mundo todo, virou música de luxo, chegou nas maiores salas de concerto, e agora maduro, faz o caminho inverso, de retorno às suas origens", explica o pianista de Madureira, Jonathan Ferr. Pioneiro na cena, há seis anos Ferr leva o jazz pro asfalto com seu projeto Jazz Out.

Como desenvolvimento do projeto, no último mês ele lançou "Trilogia do Amor", em que mistura a classe do jazz ao hip hop, rap e drum and bass. Como suporte visual, Ferr lançou o curta afrofuturista "A Jornada", que rodou festivais divulgando a música "Luv Is the Way".

Planejando uma turnê pelo Brasil no segundo semestre e edições da Jazz Out em São Paulo, Ferr teve um primeiro semestre agitado. Abriu o show do saxofonista americano Kamasi Washington no Circo Voador, se apresentou no Rio2C, uma das principais conferências de música do país, e foi anunciado como um dos artistas do Palco Favela, no Rock In Rio. Ao Asfalto, ele explica onde os projetos se cruzam e mostra como o novo jazz tem encontrado espaço nas cenas urbanas do Rio de Janeiro e São Paulo.

Você fala no release sobre o jazz no caminho de volta às ruas. O que torna o seu jazz mais urbano?

Jonathan Ferr fecha a rua e recebe cerca de 500 pessoas em evento de jazz na Void Madureira (Divulgação)

Para mim, o jazz vem fazendo esse caminho de volta a muito tempo. No momento em que ele busca o contato com o popular. Existe uma falsa ideia que habita o imaginário popular de que o jazz é só para classe A, ou para intelectuais ou colecionadores de discos, mas o jazz é para todos. Mais do que um estilo musical, jazz é um conceito de liberdade artística que se reinventa a cada geração.

Por isso, resolvi chamar minha música de urbana, por que eu uso essa liberdade jazzística para tocar os sons da rua, ou seja, que não estão nas salas de concerto, como o soul, funk, neo soul, eletrônico, drum and bass. Mais do que onde a música está, é onde a música respira. Toco aquilo que minha geração ouve, fala e veste, é pra conectar as pessoas na loucura cosmopolita das cidades, isso torna meu jazz muito urbano, em outras palavras, posso dizer que meu jazz é da rua.

Seu álbum recém lançado, Trilogia do Amor tem uma faixa que chama "Sonhos", aberta com o emblemático discurso de Martin Luther King. Quando decidiu usá-lo como parte da faixa?

Capa de "Trilogia do Amor", de Jonathan Ferr

Desde o início da gravação do álbum, eu já tinha certeza que deveria usar o áudio do Martin em "Sonhos" (ouça). Conversei com meu produtor Vini Machado e concordamos que precisava ser assim. Eu já tinha tocado ela algumas vezes ao vivo e tinha sentido uma energia muito poderosa nesta canção. Ela nasceu quando eu estava muito mergulhado sobre a história de Martin Luther King. Assistindo documentários sobre ele, lendo coisas, e buscando traçar um paralelo com o movimento negro aqui no Brasil.

Me chamou a atenção a coragem com que M.L.K, um homem comum, enfrentou um sistema complexo e brutal em busca de um ideal. Lembro de ter ficado semanas refletindo. Existem dois sonhos que devemos sonhar: o sonho individual e o sonho coletivo. Pessoas como ele, ou como Marielle, pra citar alguém muito próximo, que tiveram a coragem e generosidade de sonhar por muitos. Acredito que essas pessoas passam por uma revolução, não à toa.

O curta "A Jornada" oferece qual tipo de suporte ao álbum? É referência a alguma música em específico? Qual será o próximo curta / clipe / música?

O disco é pensado em três capítulos. Dividi as sete faixas entre eles que são: A Jornada (assista acima), O Renascimento, A Revolução. Sempre fui entusiasta de cinema, já havia estudado, e desejava criar algo a partir disto. No início, não pensava sobre como conectá-lo completamente, só sabia que queria rodar algo maior que um clipe, algo com narrativa e estética de um curta. E assim ocorreu, fiz minha primeira direção, contei com uma equipe de quase 20 pessoas no set, em sua maioria, mulheres e homens pretos. Isso foi muito importante para a narrativa e protagonismo que buscava nesta obra que tem temática afrofuturista.

Logo, ficou claro pra mim que esta obra fazia parte de algo maior, e que pra fazer sentido, eu teria que completar esta trilogia. Então o álbum caminhou pra esse lugar também. O filme ficou pronto muito antes do álbum sair, e rodamos durante todo o ano de 2018 por importantes festivais de cinema, concorremos a prêmios e levamos melhor figurino em deles. As músicas do fazem parte do primeiro capítulo do álbum que tem o mesmo titulo do filme A Jornada. As próximas obras serão O Renascimento e A Revolução. Ambos para este ano e seguindo a temática afrofuturista.

Como surgiu o projeto jazz out e qual a repercussão que ele já teve no Rio?

O projeto Jazz Out surgiu em 2016, foi idealizado e criado em conjunto com a empresária, gestora e entusiasta cultural Tânia Artur, que também me empresaria. Meses antes da criação, Tânia e eu fizemos uma residência artística de grande repercussão no Hotel Vila Gale. Buscávamos um lugar onde eu pudesse mostrar meu som e formar plateia. Os primeiros foram um sucesso e logo percebemos que este espaço poderia potencializar outras carreiras, então, passei de músico para curador do evento, onde recebíamos artistas de jazz contemporâneo (instrumental e vocal).

Passaram por lá inúmeros artistas de vários lugares do Brasil e do mundo. Hoje, o evento já está no quarto ano consecutivo. Os shows acontecem no Hotel Vila Galé, com diferentes artistas a cada 15 dias, sempre quinta. o Jazz Out já é referência de evento de jazz no Rio. Já realizamos mais de 150 shows, além de criarmos o Jazz Out Festival, o primeiro festival de jazz urbano do Rio de Janeiro. O segundo acontecerá dia 15 de junho.

Cena do curta afrofuturista "A Jornada"

Em qual cena musical você está envolvido? 

Eu tenho estado conectado em muitas cenas de artistas de diferentes seguimentos, mas principalmente artistas brasileiros de música negra: Bia Ferreira, Doralyce Gonzaga, Fabriccio, Luciano Dom, Janine Mathias, Joy, Lossio, Youn, Joel Ferreira. Tem uma galera muito boa fazendo música de muita qualidade. Meu som é muito híbrido, e flerta com o R&B, com o eletrônico, o rock, tem o jazz costurando tudo. Então é difícil me enquadrar em uma cena específica, por isso gosto do termo jazz urbano, por que é como se fosse uma plataforma de tudo o que eu faço.

Como Trilogia do Amor se enquadra na cena urbana atual?

Acredito que temos que nos fortalecer muito no afeto entre nós para sobreviver a tudo o que se anuncia. O medo paralisa, o ódio cega, o fanatismo limita. Tudo que não precisamos. Este álbum foi feito e pensado dentro de um processo meu de busca espiritual (algo que vai além de qualquer religião), eu buscava uma ligação comigo, mergulhei fundo para dentro de mim mesmo, a fim de buscar respostas para perguntas que eu não sabia formular, apenas intuía.  Foi neste contexto de inquietação que as canções foram nascendo. Precisamos estar muito afinados com nossa chama interior, para enfrentar pensamentos de retrocesso, caso contrário iremos adoecer, fadigar e desistir e é neste momento que perdemos o jogo. Espero que este álbum possa ser aliado de todos que buscam a si mesmos.

Ouça "Trilogia do Amor" e assista "A Jornada" em linktr.ee/Ferr

Sobre a autora

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Sté Reis estudou Jornalismo na São Judas e desde então escreve sobre sua relação com as ruas da capital. Se especializou em cultura underground, música e feminismo, foi repórter em UOL Entretenimento e tem textos publicados no Zona Punk, Youpix, Brainstorm9, Deepbeep, Rolling Stone, MTV e Facebook Brasil. É assistente de conteúdo do DJ Marky, do rapper Projota, e compartilha seus achados no Malaguetas, há mais de dez anos no ar.

Sobre o blog

Histórias de quem ocupa a cidade e dicas de intervenções urbanas, música, cultura pop e esportes de rua para quem encara o asfalto de São Paulo e busca novas formas de viver a capital.

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