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Skatistas pedem #SalveOVale do Anhangabaú, patrimônio do skate nacional

Sté Reis

2011-06-20T19:18:48

11/06/2019 18h48

Foto de Marcelo Mug para a Black Media mostra manifestação na frente da Prefeitura de São Paulo

O Vale do Anhangabaú, em São Paulo, é patrimônio do skate nacional. Por ali, ícones do skate brasileiro encararam manobras. Bob Burnquist, Formiga, Rodrigo TX, Tiago Lemos, Leticia Bufoni são apenas alguns dos nomes que escrevem a história do skate no Brasil. No ano que vem, o skate é uma das modalidades das Olimpíadas.

Revitalização do Vale começou com atraso, diz arquiteto

Píer já demolido (foto de Murilo Romão)

Nesta semana, a Prefeitura de São Paulo anunciou o início das obras da revitalização do espaço. O projeto de R$ 80 milhões deve ser entregue até junho de 2020 e entre as mudanças estão a abertura de espaço para cafés e floriculturas, ampliação da área verde, bancos e decks de madeira. Na área da arquibancada de mármore, será instalada uma fonte com 850 pontos de água, que vai funcionar como um grande chafariz.

O projeto é de 2013, na gestão de Haddad, e agora tem continuidade na vigência do prefeito Bruno Covas. "O projeto vem da administração passada e não tinha sentido jogar no lixo. O objetivo é que o Anhangabaú deixe de ser um espaço de passagem e se torne um ambiente de convivência. Vamos melhorar a acessibilidade e a iluminação com foco no pedestre para que as pessoas se apropriem desse espaço de manifestação política e cultural", disse em nota.

O projeto que vai substituir o paisagismo criado pela arquiteta brasileira Rosa Grena Kliass em parceria com Jorge Wilheim e Jamil Kfouri é do arquiteto dinamarquês David Sim, do escritório Gehl Architects. Ele é inspirado em parques nobres de grandes metrópoles, como o Bryant Park, em Nova Iorque.

Skatistas pedem #SALVEOVALE

Murilo Romão e Marcelo Formiga em ato na frente da Prefeitura (Marcelo Mug | Black Media)

Assim que os tratores começaram a rodar pela área, uma campanha nas redes sociais movimentada pelas maiores mídias de skate do Brasil ganhou força: #SalveoVale. Alguns skatistas fizeram revezamento e dormiram no local para intorremper a obra em busca de um diálogo com a Prefeitura. De manhã, parte da estrutura já havia sido demolida.

O skatista Murilo Romão conversou com o Asfalto sobre o desenvolvimento da conversa com os orgãos públicos. "As primeiras audiências públicas sobre a revitalização começaram em 2015, entrou em pausa por um tempo e eles já voltaram com a licitação para a obra. O Vale do Anhangabaú tem a importância que a São Bento tem para a cultura do hip hop. Foi horrível ver tudo destruído, os caras quebrando tudo."

Skatistas pedem Salve o Vale (Marcelo Mug | Black Media)

Fernando Chucre, Secretário Municipal de Desenvolvimento Urbano, que está liderando as negociações com os skatistas, esteve junto com Murilo no local na tarde desta terça, 11, para apresentar o novo projeto. Próximo a altura da Avenida São João, um espaço de 800 metros será reservado para esportes urbanos.

"Conversando com os skatistas, entendemos que no futuro projeto do Anhangabaú tem um modelo de pista que não converge com as necessidades da garotada", explica. "Como um dos nossos arquitetos também é skatista, estamos analisando uma forma de replicar o que eles chamam de arquibancada no novo espaço. Ficamos de sentar com eles e fazer esse projeto rapidamente para que eles possam usufruir do novo espaço antes da obra ficar pronta, o que deve demorar ainda um ano".

Negociações com arquitetos da prefeitura está em andamento (Marcelo Mug | Black Media)

Murilo luta para que essa solução alternativa seja viável e o Vale não perca sua força na cultura do skate. Como consenso, a Prefeitura vai adiar a obra até a próxima semana para que a comunidade se reúna para a despedida do espaço, que coincide com o Go Skate Day. "A rua é o primeiro lugar onde acontece a manobra, a essência do skate está na rua", explica Murilo. "Essa obra precisa ser feita com participação popular."

Entre as publicações dos skatistas, ainda existe a cobrança à CBSK (Confederação Brasileira de Skate), entidade que regulamenta as normas e políticas voltadas ao desenvolvimento do skate no país, liderada por Bob Burnquist, que não se pronunciou sobre a revitalização. Procurada pela reportagem, a confederação ainda não tinha um comunicado oficial sobre as obras no Vale, ainda que Bob tenha expressado sua indignação ao prefeito. "Salve o Vale, ele está cheio de vida", escreveu.

Skatistas comentam fim de uma era no Anhangabaú

Corrente de skatistas para barrar a obra e conseguir uma conversa com a Prefeitura (Marcelo Mug | Black Media)

 

Storyteller

"O Vale é uma entidade do skate nacional. Comecei a andar de skate em 1998 e, naquele momento, o Vale do Anhangabaú já era importantíssimo para a cultura do skate no Brasil. O skate paulistano e brasileiro evoluiu ali, apareceu em vídeos internacionais. Skatistas do mundo todo comentam sobre estas arquibancadas. É muito triste ver tudo isso acabar e, assim, o Brasil, mais uma vez, reforçar sua imagem de desrespeito com a sua história.

Aqui museus queimam, obras de arte são destruídos e espaços históricos, demolidos. Tudo por conta dos interesses do capital e seus grandes senhores. Fica uma sensação de tristeza e impotência, sabe? Parece que não temos domínio algum sobre coisas bonitas que construímos, tudo depende da vontade de outrem e isso é desanimador, ainda mais, por conta daquela que se denomina Confederação Brasileira de Skate, estar calada, não manifestar uma palavra em prol daquilo que contribuiu para eles estarem onde estão hoje."

Lucas Xaparral

"O skate nasceu na rua e quando a gente fala da modalidade street, que hoje é uma modalidade Olímpica, o próprio nome já diz: "rua". Então, assim, o skate street é um skate em que você desenvolve manobras em lugares que não são feitos pra andar de skate, essa é a tradição mais clássica do skatista de rua, é se adaptar e ser criativo. 

O skate estar hoje nas Olimpíadas num formato mais competitivo não apaga a história, pelo contrário, o skate só chegou até onde chegou por conta de toda essa história. Independente do momento que o skt está vivendo, independente da gente viver um momento mais competitivo, a essência do skate é essa. O skate, na minha concepção como skatista profissional, é isso: se divertir, achar lugares novos, entender o lugar numa forma diferente, usar sua criatividade e conseguir se expressar em cima do skate em diferentes lugares, seja na rua, dentro de uma competição, dentro de uma Olimpíadas.

O Vale influenciou muito o estilo do skate brasileiro, comecei a andar lá no fim dos anos 90. Vários prós como Rodrigo TX, Tiago Lemos, cresceram no Vale. O Vale é um lugar difícil, faz com que você treine muito suas habilidades, força, as bordas são altas, então os brasileiros são famosos por ter um pop (pulo) absurdo e potente e isso diz muito sobre os lugares que a gente anda."

Klaus Bohms (no Instagram)

"Nós amamos o chão que nesse momento está sendo destruído por tratores e funcionários da prefeitura. Nós conhecemos cada rachadura de cada pedra que nesse momento está amontoada numa imagem de ruína. Cada caminho estreito dessa construção nos faz lembrar um aprendizado ou uma epifania que levamos pra vida toda.
Cada quina tinha seu propósito que demoramos três décadas para desvendar. Uma vez desvendadas, nos abriu um portal que nos levou a viagens por todos os continentes, a oportunidades de trabalho e sustento para nossos familiares, a oportunidade de ter uma moradia, a construção de amizades de raríssima intimidade pessoal que dispensa palavras para se solidificar.

Conhecemos como cada pedra desse espaço reage ao sol a cada minuto do dia. Conhecemos as dores de cada cidadão atribulado que usou esse chão de cama num momento difícil. Conhecemos porque compartilhamos essas pedras com essas pessoas. Conversamos, fumamos um cigarro juntos e nos abrimos um pro outro numa tarde qualquer. O espaço público é a nossa casa, o Vale do Anhangabaú é a nossa sala. E é a nossa escola. E é a nossa história."

Priscila Morais

"Aqui eu conheci pessoas, andei de skate, conheci lugares para além da minha realidade no fundo da ZL. Estamos deixando de ocupar espaços, fato! Querem nos "encaixotar" em centros de "treinamentos" para que andemos de skate e não que sejamos skatistas, há uma grande diferença entre os dois e prestem bem atenção para quem vocês estão batendo palmas para representá-los. Fomos todos CBSK, mas a mesma não foi por nós agora!
Esse pedaço da pedra vou guardar dessas recordações, o vale do Anhangabaú estará eternizado. Muito respeito aos que resistiram, queremos saber sobre esse projeto de revitalização: Queremos saber do Vale do Anhangabaú, queremos saber do projeto de revitalização, pois se há skate nele, quem foi consultado para tal projeto? Onde o skate estará nele? Qual a garantia temos que continuaremos ocupando esse espaço que os skatistas salvaram todos esses anos? Queremos saber!"

* Colaborou Bruno Paoli
* Agradecimentos: Marcelo Mug, Murilo Romão e Black Media

 

Sobre a autora

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Sté Reis estudou Jornalismo na São Judas e desde então escreve sobre sua relação com as ruas da capital. Se especializou em cultura underground, música e feminismo, foi repórter em UOL Entretenimento e tem textos publicados no Zona Punk, Youpix, Brainstorm9, Deepbeep, Rolling Stone, MTV e Facebook Brasil. É assistente de conteúdo do DJ Marky, do rapper Projota, e compartilha seus achados no Malaguetas, há mais de dez anos no ar.

Sobre o blog

Histórias de quem ocupa a cidade e dicas de intervenções urbanas, música, cultura pop e esportes de rua para quem encara o asfalto de São Paulo e busca novas formas de viver a capital.