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Kueia e Instagrafite contam como o grafite de SP se tornou único no mundo

Sté Reis

2028-03-20T19:23:38

28/03/2019 23h38

Karen Fidelis em ação (Foto de: @colabxpo)

Dia 27 de março é comemorado o Dia do Graffiti, data criada simbolicamente após a morte do artista ítalo-brasileiro Alex Vallauri em 87. Há mais de 30 anos colorindo São Paulo, a arte de rua hoje desempenha diferentes papéis no espaço urbano e nossos artistas são referência mundial. Mas, o que torna a arte paulistana tão criativa e atraente?

A Mari Mats, do Instagrafite, perfil no Instagram que hoje conta com 1 milhão de seguidores, tem um palpite: "São Paulo tem uma assinatura registrada: o pixo. O pixo com caligrafia própria é daqui. Isso atrai pessoas, artistas, curadores e curiosos do mundo inteiro. Nosso diferencial de centros como Londres e NY, é que a arte não se limita a um bairro, está espalhada pela cidade. É, de fato, a capital nacional do grafite."

Para a grafiteira mineira Karen Fidelis, a Kueia, que veio morar na capital em busca de espaço na cena, a arte acompanha a realidade de sua região. E não é diferente por aqui. "O grafite de SP acompanha o caos da cidade, tem mais informações, é mais pesado. Se a nossa arte não faz mais barulho do que a cidade, a gente não aparece. As cores são mais vibrantes, os personagens são mais expressivos. Tudo é mais."

Se antigamente andar com um spray na mochila era suficiente pra dormir na delegacia, hoje as empenas dos prédios são oferecidas para dar uma outra cara à cidade. Kueia acredita que a mudança não está na arte ou nos artistas, mas no olhar dos cidadãos e no marketing dos grafiteiros.

"O olhar das pessoas mudou. Grafiteiros como OsGemeos, que foram um dos pioneiros a ter contato com a arte de rua americana, começaram a saga de interagir, fazer essa troca de informações ao redor do mundo e levar o grafite brasileiro pra fora. Hoje, quem faz isso é o Kobra. E não sei o que acontece aqui, mas tudo o que vai pra fora ganha valor. Pra mim, o momento mais marcante foi quando OsGemeos pintaram o castelo na Escócia, em 2007. Foi ali que o grafite brasileiro começou a bombar, esse foi o boom do graffiti em SP."

Castelo de Kelburn (Escócia), pintado pelos OsGemeos em 2007 (Divulgação)

Com mais grafiteiros nas ruas, a diversidade de estilos, personagens e artistas movimentou a cena. "O grafite brasileiro também carrega nossa diversidade social. Enquanto, em alguns países, ainda são pintadas letras e personagens dos anos 80, a gente já tem muito mais. Mistura de ilustração digital, arte de galeria, tradições africanas, indígenas, europeias, esse mexidão que é nossa cultura. Nossa arte é mais rica porque nossa cultura é diversa. A riqueza de artistas daqui é impressionante", explica Kueia.

Criatividade dos artistas brasileiros

Arte de Karen Fidelis para Nike na Rua da Consolação, em São Paulo. A ação da marca convocou diversos grafiteiros e tem curadoria do Instagrafite (Foto: Bruna Toledo)

A Kueia foi uma das grafiteiras convidadas pelo Instagrafite a participar de uma intervenção urbana da Nike para celebrar a criatividade dos artistas de rua paulistanos. Inspirada pelo caos da cidade, ela vê o muro como uma tela a ser pintada e a cidade como uma grande galeria. "Represento o universo das pessoas que estão na rua. Pode ser periferia ou centro na cidade, vejo quem frequenta o local e se relaciona com a arte ali, quem são as pessoas impactadas na região. A minha coelha é o que vivo quando estou pintando um grafite."

O maior desafio ao materializar a ideia é representar sentimentos com a personagem. "O que a coelha está fazendo? O grafite não fala, é como um surdo se comunicando com gestos. Preciso humanizar o personagem para facilitar a leitura. Tenho essa preocupação da anatomia ser realista, mas é um bicho no final. É agressivo, mas é fofo. É realista, mas é ilustra. É um protesto, mas é divertido. Cômico, mas expressivo, gosto dessa dualidade, de quebrar padrões."

Como o graffiti impacta a vida dos cidadãos

A arte imita a vida em obra de Karen no Museu de Arte Urbana (Foto de @feik_frasao)

Kueia acredita que o grafite gera um impacto positivo na vida dos paulistanos. "Imagina o trajeto casa-trânsito-trabalho todo dia. Ficamos horas parados. Ficamos preocupados, dentro dos nossos problemas. O grafite faz com que pensemos menos em nós mesmos e convida a gente a olhar a paisagem urbana. Alguns são mais políticos, outros mais divertidos. A gente torna o dia das pessoas mais leve. Temos grafite de protesto, o que inspira alegria, o abstrato que traz descanso pros olhos."

"A arte de rua é a forma mais democrática da arte. São Paulo ser uma galeria urbana à céu aberto é super positivo aos moradores que nela vivem. De uma cidade cinza, estamos trazendo cor e contextos para as pessoas refletirem, pensarem", diz Mari. "A galeria da rua é pra todos, faz com que todo mundo possa ter um pouquinho de contato com cultura, política e arte. E arte é fundamental para vivermos os tempos de hoje, dá um respiro aos problemas e a rotina que nem sempre é leve."

Sobre a autora

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Sté Reis estudou Jornalismo na São Judas e desde então escreve sobre sua relação com as ruas da capital. Se especializou em cultura underground, música e feminismo, foi repórter em UOL Entretenimento e tem textos publicados no Zona Punk, Youpix, Brainstorm9, Deepbeep, Rolling Stone, MTV e Facebook Brasil. É assistente de conteúdo do DJ Marky, do rapper Projota, e compartilha seus achados no Malaguetas, há mais de dez anos no ar.

Sobre o blog

Histórias de quem ocupa a cidade e dicas de intervenções urbanas, música, cultura pop e esportes de rua para quem encara o asfalto de São Paulo e busca novas formas de viver a capital.