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São Paulo se despede de graffiti da resistência trans no Minhocão

Sté Reis

17/08/2019 18h11

Detalhe do mural que por dois anos coloriu a empena do Minhocão foi feito por Patrick Rigon e Renan Santos (Foto de Gustavo Bonfiglioli, da Pajubá)

O Edíficio Lang, na Santa Cecília, amanheceu menos colorido neste final de semana. O mural feito pela Absolut em setembro de 2017, que retratava as cantoras Linn da Quebrada e Raquel Virgínia + Assucena Assucena (As Bahias e a Cozinha Mineira) com a frase "A Arte Resiste" começou a ser apagado. A inauguração do mural gerou uma série de ações na Casa1, workshops sobre gênero e representatividade, rodas de discussão e financiamento do videoclipe das artistas que hoje já ultrapassa a marca de três milhões de visualizações.

Mural sendo apagado na tarde deste sábado, 17 (foto de Leticia Souki @lesouki)

O mural ficou tempo o suficiente para criar uma relação afetiva com os moradores do centro e a cena LGBTQIA+, mas já tinha data para acabar. "Foram 2 anos de contrato com o prédio, financiados pela Absolut. Aluguel de concessão de espaço na região do Minhocão às vezes é alto e fica difícil manter", explicou a Mari, do Instagrafite. "A marca resolveu concluir o projeto e encerramos o contrato com o prédio que preferiu ter a empena da cor original conforme acordo", completa.

Em suas redes sociais, os artistas Patrick Rigon e Renan Santos comentaram a despedida. "Hoje nos despedimos desse muralzão, tão simbólico, lindo e forte, que tive o prazer de pintar no centro de São Paulo com o Renan. Símbolo de luta e resistência que ficará na memória. Esses são os ciclos da arte urbana, tudo morre para nascer novamente, outros virão", escreveu Rigon. "Hoje a cidade ficou um pouco mais cinza. Projeto lindo que tenho muito orgulho de ter participado e que vai deixar muitas saudades", disse Renan.

Foto de Gustavo Bonfliglioli da Pajubá, que também participou da concepção do projeto em 2017

Mari concorda com os artistas e diz que este é o ciclo normal da arte de rua. "Estamos tristes, mas faz parte da produção dos murais, como os prédios são particulares, eles têm o poder de decidir após encerramento do acordo. Artistas foram avisados previamente e sabiam de tudo com antecedência. Todos estamos saudosos, mas compreensivos. Logo logo trazemos outro marco para cidade abraçando temáticas que são de identificação da população."

Sobre a autora

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Sté Reis estudou Jornalismo na São Judas e desde então escreve sobre sua relação com as ruas da capital. Se especializou em cultura underground, música e feminismo, foi repórter em UOL Entretenimento e tem textos publicados no Zona Punk, Youpix, Brainstorm9, Deepbeep, Rolling Stone, MTV e Facebook Brasil. É assistente de conteúdo do DJ Marky, do rapper Projota, e compartilha seus achados no Malaguetas, há mais de dez anos no ar.

Sobre o blog

Histórias de quem ocupa a cidade e dicas de intervenções urbanas, música, cultura pop e esportes de rua para quem encara o asfalto de São Paulo e busca novas formas de viver a capital.