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Por dentro da Ouvidor 63, a maior ocupação cultural da América Latina

Sté Reis

10/07/2018 17h17

Ocupação cultural na Rua do Ouvidor, 63, já tem 4 anos (Foto: Elza Cohen)

No último sábado, 7, passei a tarde com a fotógrafa mineira Elza Cohen conhecendo algumas das artistas que fazem parte da Ouvidor 63, a maior ocupação cultural da América Latina. O espaço próximo ao Vale do Anhangabaú abriga cerca de 100 residentes, entre brasileiros do Pará, Rio de Janeiro, Bahia e de países como Venezuela, Colômbia e Equador.

Com a Bienal “Outros Mundos Possíveis” programada para setembro, paralela à 33ª Bienal Internacional de Artes de São Paulo, tem muita coisa acontecendo por ali. No dia em que a ocupação fez quatro anos, houve o desabamento no Largo do Paissandú, o que reacendeu na grande mídia as discussões sobre os prédios ocupados no centro. A comunidade teve a luz cortada, passou a noite na calçada em manifestação e na mesma semana recebeu uma vistoria em que passou com nota alta.

Para morar na Ouvidor 63, é necessário conhecer algum residente e apresentar um projeto artístico. O acesso também só é permitido para quem foi autorizado pelo coletivo (Foto: Elza Cohen)

A propriedade do edifício é do governo do Estado desde a década de 50. Nos últimos anos, o prédio de treze andares passou por leilões sem encontrar compradores. Prestes a passar pela segunda vistoria, o futuro da Ouvidor, por enquanto, é incerto. Mas, isso não impede que seus residentes sonhem com a abertura de uma universidade livre em 2019 e mais incentivos para seus projetos sócio-culturais. Para realizar a Bienal, abriram um financiamento coletivo no Catarse, onde buscam verba para realizar o evento e suprir os artistas com materiais.

Nos moldes de grandes ocupações, como a Tacheles, em Berlim, e a 59 Rivoli, em Paris, a 63 funciona como uma incubadora cultural. Enquanto fortalece a troca de conhecimentos entre artistas multidisciplinares e possibilita que eles tenham espaço e moradia para desenvolver suas obras, promove oficinas de dança, arte de rua, artes plásticas, música, circo, performance e o Bazar 63 todas as semanas.

Bazar 63 vende peças customizadas, artes e petiscos preparados na ocupação (foto: Elza Cohen)

Para Flávia Redivo, jornalista que organiza o primeiro livro sobre a ocupação, a contribuição da Ouvidor para a arte contemporânea em São Paulo tem atraído a atenção de curadores e é parte de uma discussão de bastidores sobre o desinteresse do público em visitar galerias de arte convencionais. “Hoje existe uma crise nas grandes instituições de arte. Temos artistas incríveis aqui na Ouvidor, é um recorte da sociedade e uma referência de espaço alternativo, de como fazer com poucos recursos. A proposta é tornar a arte mais acessível para o público.”

Batemos um papo com algumas das artistas que fazem parte da ocupação direta ou indiretamente. Ainda minoria perto do número de homens que fazem parte da comunidade, elas buscam o diálogo e se fortalecem para garantir respeito na convivência.

Rose Steinmetz, fotógrafa (Geórgia Soviética)

Rose já mora no Brasil há 16 anos e foi seduzida pelos trabalhos na ocupação. Mesmo sem ser residente, sempre está por lá registrando o dia a dia dos artistas, ajudando nas tarefas divididas entre o coletivo e promovendo as atividades culturais no espaço. Ela foi a nossa guia por todo o prédio, que está organizado informalmente por disciplinas e apartamentos de artistas.

Moara Brasil, artista plástica (Pará)

Moara veio do Pará para a Ouvidor a convite de um amigo. Se envolveu com a arte através da moda e junto com artistas como Alexia, DJulia e Nicolas Não Tem Banda faz parte das atividades na Ouvidor desde os primeiros anos. Ela acredita que a Bienal pode construir laços e apresentar outras vivências artísticas para o público. “Fizemos a primeira Bienal no ano passado com apenas R$ 1.500. É preciso fazer parte para construir”

Ana Silva, muralista (Venezuela)

Ana já passou por várias ocupações latinoamericanas e conta que as ações na Ouvidor são famosas fora do país. Suas obras têm inspiração na cultura indígena e geometria sagrada, além de pintar suas mandalas detalhistas em murais e tatuagens. “Gosto de me integrar com a natureza, buscar o equilíbrio por meio dela. Tive uma adolescência obscura e a arte me ajuda a superar muita coisa.”

Paula Barreira, estudante (Colômbia)

Paula veio para São Paulo em busca de aprendizados e começou a cantar e tocar ukelele através das oficinas da Ouvidor, onde também participa de encontros de poesia. “Estamos na vida para evoluir”, diz. Ela planeja ver a mãe depois de três anos sem voltar para casa no próximo Natal.

Flavia Redivo, jornalista (São Paulo)

Flavia está escrevendo um livro sobre 13 artistas da ocupação, um para cada andar do edifício. Está a frente da comunicação da Bienal “Outros Mundos Possíveis”.

Alexa (Colômbia) e Paula Itida (Recife), artistas circenses

Alexa e Paula são algumas das minas cuidando do nono andar da ocupação, que é destinado às mulheres e trans. Elas cuidam da horta comunitária do prédio e do espaço com aulas de dança e malabares. “O circo sempre foi da rua, é uma cultura muito antiga que está voltando para a rua para divertir as pessoas”, comenta Paula, que já passou por ocupações culturais no Rio, São Paulo e em Recife.

Rebeca, sanfonista (Equador)

Rebeca encontrou seu espaço na Ouvidor há menos de um mês. Para ela, a grande vantagem de estar na ocupação é poder fazer as coisas em seu próprio tempo. Ela conta que todos os moradores têm deveres. “A gente se fortalece. Cuido da horta, da manutenção e uso a minha arte para me movimentar. São Paulo é uma cidade muito boa para se fazer música.”

Jessica, artista de rua (Bahia)

Jessica veio para São Paulo após a morte da avó, quando ela tinha 15 anos. Desde então, conta ter tido vivências na rua no Rio e em São Paulo. Participou do surgimento de várias ocupações no Centro, como a Casa Amarela na Consolação. Ela acredita que a arte a ajuda a “vomitar as tristezas”. “Durmo com a cabeça barulhenta por saber que estou vulnerável e ao mesmo tempo tranquila por saber que estamos promovendo arte e cultura para as pessoas. Ocupar é resistir às mazelas cotidianas”

Brechó 63

Toda semana o Brechó 63 reúne peças garimpadas pela cidade, doações e promove um bazar com suas versões customizadas. O espaço também abriga um estúdio de tatuagem, além de vender comidas, bebidas e artes dos residentes.

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Fotos por Elza Cohen.

Sobre a autora

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Sté Reis estudou Jornalismo na São Judas e desde então escreve sobre sua relação com as ruas da capital. Se especializou em cultura underground, música e feminismo, foi repórter em UOL Entretenimento e tem textos publicados no Zona Punk, Youpix, Brainstorm9, Deepbeep, Rolling Stone, MTV e Facebook Brasil. É assistente de conteúdo do DJ Marky, do rapper Projota, e compartilha seus achados no Malaguetas, há mais de dez anos no ar.

Sobre o blog

Histórias de quem ocupa a cidade e dicas de intervenções urbanas, música, cultura pop e esportes de rua para quem encara o asfalto de São Paulo e busca novas formas de viver a capital.