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Dicionário do maloqueirês paulistano

Sté Reis

22/08/2018 12h38

Paulistano é desses que não fala sem gíria e acha que não tem sotaque. E o vocabulário só cresce à medida que os muros diminuem. É uma mistura de maloqueirês com pajubá, de nordeste com sul, de memes com inglês mal pronunciado. Quando você vê, já disparou uma sentença que não faz sentido, mas que na rua todo mundo entende e tem empatia. Pede "por gentileza" na roda. As gargalhadas são altas. Tá metendo o louco?

Esse post começou com um desafio pessoal de uma semana sem gírias, há uma terça atrás. No dia a dia, sentenças práticas de explicar viraram frases imensas, cheias de palavras rebuscadas. Como elogiar coisas simples sem falar "da hora"? Maravilhoso é demais. Interessante é blasé. Legal? Quem ainda fala legal? Terminar a conversa no bar sem PODE CRER e começar uma história intrigante com um amigo sem MÊO. Te desafio.

Minha avó paterna era de Campina Grande (PB). Ela já partiu, mas deixou um dicionário de pequenos dialetos nordestinos como herança. Oxi, cadê a mistura? É uma das favoritas do meu sobrinho de cinco anos. Da vó Alice, de Montes Claros (MG), veio os erres arrastados. Não bate a poorrrrrta, grita a minha mãe do outro lado da sala.

Meus três irmãos, criados na periferia da Zona Oeste, não tem mais nome. Todos atendem por JÃO. Se chegar em um almoço lá em casa, vai encontrar a minha mãe se questionando por escolher carinhosamente um nome pra cada um. Mas, o boy é da Leste. E se tem algo que aprendi sobre a Leste é que ninguém nasce ou mora na Zona Leste. São DALESTE, assim, tipo um grande time de futebol, uma nação. Vale pra Sul também.

Na noite, o pajubá era lei. Era por que agora não tem hora certa para você soltar um babado, close, bafo. Mas, se disser lacrou, o elefante branco aparece na sala. O pajubá é lei em todos os horários. E tão importante quanto o lugar de fala é como se fala. As gírias dizem muito sobre uma comunidade e o respeito que ela tem pela própria cultura. Em ambientes marginalizados, é uma forma de autoafirmação e troca íntima, porque gera identificação imediata e encurta caminhos na comunicação. Busque conhecimento no Aurelia, o primeiro dicionário gay do Brasil. 

A cereja do bolo é o vocabulário do jovem classe média com trampo criativo na Faria Lima e sabático na Europa com a grana da rescisão. Aí a misturada fica louca. "Pedi cerveja por um ano em inglês, como fala em português mesmo?". PRE-PA-RA. Aí vem o brainstorm de situações em que se fala mal do boss, daquele friend, do job, do brunch na padaria, do crush. Esse dicionário é ligado diretamente ao dicionário dos memes. Muito fake? Forninhos pra segurar hoje? E TEILE e ZAGA.

Fracassei imensamente na minha semana sem gírias. Mas, fui gloriosa no início do meu pequeno dicionário do maloqueirês paulistano. E você, qual gíria não consegue ficar sem?

MOH: se pronuncia como o mugido da vaca, diminutivo de maior

Dar pala: dar bandeira? como traduz isso?

PIGAS: cigarro

Treta: muito difícil, briga

DALESTE / DASUL: quem vive nos extremos dos bairros

De quebradinha: sair de bonde

Jão: qualquer pessoa

Moiô: deu muito errado

Pode crer: quando você concorda sem prestar atenção no interlocutor

Se pá:
talvez não   

Resenha: burocracia

Tipo: por exemplo

Mano: qualquer pessoa

Mana: qualquer pessoa  

BPN: boa pa nois

Truta: maloqueiro oldschool

Sangue Bom: só o Brown pode usar com classe

Bixo: tiozão fake descolado

Boto fé: acredito muito

É quente: é quente ou é verdade

Da hora: muito legal

Cê é loko: surpresa, indignação

Parça: os amigos todos

Pode pá: é o botão de curtir na conversa

Tamo junto: conte comigo

Babado: muito surpreendente

Close: chamar a atenção, pro bem ou pro mal

Bafo: fofoca

Inhaí: oi viado, que saudade

Cafuçu: boy

Talibã: polícia na visão das travestis

Ocó: menino novo

Aqué: dinheiro

Eque: contar uma mentira

Meter o louco: tirar vantagem de uma situação

Pesado: alguém que faz algo muito bem

Mokado: manobra de skate com muito estilo

Poucas ideias: não quero falar com ninguém

Cabrero / Cabreragem: desconfiado ou andar muito bem de skate

Quebrada: periferia, comunidade é moiado falar

Alemão:
qualquer branco com cara de nerd na quebrada

Bem tiller: vem do chilling, a arte de ficar sussa

No grau: muito bêbado

Naipe: maneiro

Bolado: pode ser o beck ou uma pessoa pensativa

Charrado: mais do que chapado

Xaviá: o ato de xavear

Pilaco: alguém estilosão

Perreco: mané

Rola: cair

Zica: muito azar ou pessoa muito foda

Embuste: boy chato, boy lixo

Suave: muito de boa

Tô de boa: tô suave

Firmeza: pode ser pra tudo bem ou elogio

Fluxo: começou com baile funk, mas hoje é qualquer baile bom

Fervo: é o fluxo das bee

Balada: é o fervo dos coxa

Mó dó: triste por alguém

Bad: triste por si mesmo

Bode: triste por todo o mundo

Crush: o novo paquerinha das tias

Malaco: maloqueiro de responsa

Sobre a autora

Nascida e criada na periferia de São Paulo, Sté Reis estudou Jornalismo na São Judas e desde então escreve sobre sua relação com as ruas da capital. Se especializou em cultura underground, música e feminismo, foi repórter em UOL Entretenimento e tem textos publicados no Zona Punk, Youpix, Brainstorm9, Deepbeep, Rolling Stone, MTV e Facebook Brasil. É assistente de conteúdo do DJ Marky, do rapper Projota, e compartilha seus achados no Malaguetas, há mais de dez anos no ar.

Sobre o blog

Histórias de quem ocupa a cidade e dicas de intervenções urbanas, música, cultura pop e esportes de rua para quem encara o asfalto de São Paulo e busca novas formas de viver a capital.